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Posts Tagged ‘técnica’

Pessoal, aqui vai uma modesta tentativa de explicar um método de produção de ramificação fina nos bonsai. Algo que deve ser buscado desde o início, porque senão, o que teremos será apenas um galho e não uma árvore.

Na natureza, a estrutura de uma árvore produz lentamente ramificações que, a partir do tronco, serão secundárias, terciárias, etc. Se repararmos na foto acima (uma sibipiruna que fica na Praça do Suspiro em friburgo), veremos um galho bem grosso (é um secundário) que vai afinando em pequenas ramificações.

Devemos buscar o mesmo em um bonsai, se quisermos oferecer a sensação de uma velha árvore no campo. É claro que nunca conseguiremos a mesma ramificação (e nem o mesmo número de folhas) de uma árvore em tamanho grande. Mas busca-se a sensação que se pode encontrar no efeito de escala. Mas existe um obstáculo inicial: os entrenós e a própria forma como o galho é construído pela planta. Vejamos como é a fisiologia do galho::

um galho normalmente vai produzindo folhas a partir de pequenos brotos em entrenós cada vez mais longos (o que não fica explícito no desenho, mas é assim). Na base de cada folha, entre o cabinho (pecíolo) e o galho, existe um broto latente e, no final do galho, um broto terminal. Se tudo correr bem (para a planta), apenas o broto terminal se desenvolve, isto é, produz uma folha e depois continua em frente. os brotos na base das folhas ficam dormentes e não se desenvolvem. Eventualmente, o galho acaba quebrando, ou a seiva demora demais para percorrer o caminho até o broto terminal, ou determinados hormônios agem, e os brotos latentes acabam eclodindo, fornecendo um novo galho.

Aqui está um exemplo com um bougainville (o galho do fundo, esquecam as flores, se puderem):

Este é um bougainville que fica na praça em frente ao Supermercado Cavalo Preto, aqui em Friburgo.

Mas dá para ver perfeitamente como os galhos do fundo se desenvolvem. Vai crescendo reto, até não dar mais. No galho com as flores (na verdade folhas modificadas chamadas brácteas, as flores reais ficam dentro delas e é branquinha), estas cresceram após a queda das folhas que ali estavam, mas depois caem e nascem novas folhas no lugar. Tudo muito bonito, tudo muito legal, mas assim não dá para fazer bonsai!!! É preciso podar o broto terminal para o galho parar de crescer em extensão e permitir aos brotos latentes eclodirem em novos galhos. Um exemplo:

Explicando: podando-se o broto terminal, a planta manda os brotos latentes acordarem e lançarem novos galhos. Futuramente as folhas que estavam naquele lugar cairão, nascendo um novo galho com as mesmas propriedades do primeiro na base de cada folha antiga. Com a maior quantidade de folhas presente, mais seiva, mais hormônios e consequentemente, o galho começa a engrossar. Ele engrossa de acordo com o número de folhas e circulação da seiva. Lembre-se que esses novos galhos se portarão como o primeiro, isto é, começarão a crescer sem parar, emitindo novas folhas, mas agora, no exemplo, são quatro galhos com folhas. Também por isso, as folhas diminuem de tamanho, uma vez que conseguem sintetizar mais clorofila através da fotossíntese e não é mais necessário uma grande área foliar. Uma excelente maneira de estimular a ramificação fina nos bonsai. Mas tem um porém… Lembram-se dos entrenós longos? Este método serve para quando o galho já possui entrenós interessantes e folhas bem posicionadas. Mas se os entrenós estão longos, o que fazer? Resposta: Poda-se não o broto terminal, mas logo após a primeira folha (atenção, algumas plantas precisam mais folhas…). Assim:

Aqui, o galho irá engrossar menos, pois não aumentou significativamente a quantidade de folhas, aliás até diminuiu a quantidade (estas também não diminuem tanto), mas agora, os entrenós começarão a ficar menores. Este método produzirá uma ramificação fina mais próximo ao tronco, o que é desejável no bonsai. O processo será mais longo, mas produzirá uma ramificação mais controlada. Uma comparação entre os dois métodos:

No final, o melhor é unir os dois métodos num só: o Cortar e deixar crescer. É simples: se os entrenós estão curtos, deixa-se crescer e poda-se o broto terminal (bom para jaboticabeiras, bougainvilles e outras plantas com essa característica). Nos galhinhos que nascerem, pode-se deixar crescer e repetir a poda do broto terminal ou podar após a primeira folha. E o tronco vai engrossando. Mas se os entrenós têm tendência a aumentar de acordo com o crescimento do galho (ácer, pithecolobiuns…), é melhor podar após a primeira folha (ou primeiro par de folhas para as plantas que emitem duas folhas, uma de cada lado, como os áceres). Outra forma (muito usada nos áceres e coníferas, mas essas têm um comportamento diferente a ser explicado em outro post) de poda é a pinçagem, retirando o broto terminal logo após a emissão da primeira folha (ou par):

Unindo as duas técnicas numa só, é possível deixar crescer o galho para engrossá-lo e depois podar curto, após a primeira folha, obtendo o melhor dos dois mundos. Cortar, deixar crescer (engrossa), cortar…

A técnica aplicada em meu mini ficus (natal 07-hoje):

E é assim que se obtém um monstro como esse:

Ou até esse:

São plantas de dois franceses (Vev e Law – nomes de guerra) que aperfeiçoaram a técnica a ponto de quase exagero… Mas um fantástico resultado.

É isso aí, espero que tenham apreciado e tido a paciência de chegar até aqui (Ei! Se você não tem paciência, tá fazendo o que com bonsai?). Essa técnica é a que empreguei no post anterior com o buxinho. Aproveitando os galhos já grossos, mas com entrenós longos, podei logo após a primeira ou segunda folha, de acordo com a necessidade. O resultado será demorado, mas muito melhor esteticamente.

Em breve novos tutoriais e técnicas. Aguardem! Me despeço com uma aquarela digital, que representa uma paisagem do Nova Friburgo Country Clube (cliquem sobre a imagem para vê-la maior) ou aqui para maior resolução. O legal na arte é a sugestão de árvores. Aprendi muito com o bonsai para fazer isso…

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